domingo, 5 de maio de 2019

Pele Fina



- Clara Barcarin -
Minha pele é fina, tanta coisa me passa, transpassa, entra, atravessa!
É fácil que o mundo externo encontre contexto nesse meu caos sensível de dentro.

Às vezes, as dores do mundo parecem passar diretamente dos olhos para o meu coração. Tem dias que as notícias do mundo me atingem como uma punhalada no peito: quanta crueldade, quanta competição, quanta coisa ruim acontecendo. 
Minha pele é fina, me arrepia a energia que chega, mesmo antes de virar pensamento concreto. Será isso sexto sentido? 
Essa pele fina que eu não sabia lidar, palavras facilmente podiam me machucar, assim como um olhar punitivo, um sorriso indefinido, antes de eu entender o porquê, antes de eu saber me proteger, eu me inundava de emoções.
Eu tinha medo de engrossar o couro e perder a sensibilidade.
Eu temia criar em mim uma capa protetora e viver anestesiada.
Eu tinha medo de que não estar exposta me faria estar fria, cega, caminhando na superfície das experiências.
Mas hoje, mesmo com essa pele ainda fina, eu penso diferente. Tento não ser nem 8 nem 80. Eu ando aprendendo:
Posso entender sentimentos e compartilhar deles sem ter que ficar aos cacos.
Eu posso observar as minhas emoções e as dos outros sem imediatamente me confundir com elas. 
O que sempre fica de tudo – rasteiras, ou leves brisas – sou eu sem tantos pesos. O que fica sou eu prestando atenção nos ensinamentos de um evento que foi denso para não ter que fazer aula de recuperação depois. Sou eu observando, equilibrando razão e emoções.
Já que é na pele que eu aprendo e apreendo a vida, já que eu sou, ao mesmo tempo, a cobaia e o cientista na minha vida, que eu preste muita atenção em tudo, que eu pare para processar momentos e acontecimentos, que eu seja uma aluna atenta.
Há quem fica decorando as lições dos livros antigos e dos manuais de instruções, há quem passe de fase assim, por decoreba ou por confiança no que já existia antes.
Eu não, só acredito no que me entra, no que me fica, na experiência da minha pele. Ou eu sinto ou eu não sinto.
Se está certo ou errado esse meu mecanismo, quem é que pode dizer?
Pelo menos (e pelo mais também!) essa minha pele fina já não é esponja, aprendeu a ser filtro!

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