- Martha Medeiros -
Há vestígios de sua passagem pela
Terra, mas ninguém sabe dizer quem foi a última "mulherzinha"
sobrevivente: a única certeza é que elas foram extintas, não existem mais. Fiquei observando os dois sentados
lado a lado na sala de embarque do aeroporto. Conseguia escutar o que eles
diziam, até porque não se preocupavam em ser discretos. Não fazia ideia qual
seria a profissão da dupla, até que me deram uma pista. Um deles comentou sobre
uma atriz de TV: "Aquela? É uma mulherzinha à toa". Arqueólogos, por
certo. Desenterraram dois fósseis numa única frase. Eis o curso da história:
"mulherzinhas" evoluíram para "mulherões", e as "à
toa", que existiam apenas como lenda difamatória, hoje são presidentes de
empresas, esportistas, participantes de rali, médicas, engenheiras, motoristas
de aplicativos e de caminhões, jornalistas, vereadoras e um longo etcetera, e
ainda impressionam por sua capacidade de preservar a maternidade como importante
realização biológica da espécie, mesmo em meio a tantas transformações. Há vestígios de sua passagem pela
Terra, mas ninguém sabe dizer quem foi a última "mulherzinha"
sobrevivente: a única certeza é que elas foram extintas, não existem mais. As "mulherzinhas"
eram translúcidas e decorativas. Precisavam pedir licença para dar opinião e,
mesmo quando recebiam, não eram escutadas. Frágeis e dependentes, seus fósseis
são hoje fonte de informação valiosa no estudo da evolução da espécie. Pode-se,
muito raramente, encontrar uma variação de "mulherzinha" escondida em
algum reduto, servindo de primeira-dama de um poderoso. Mas a história confirma
que elas desapareceram mesmo e deram origem a uma nova categoria classificada
como "mulherões", que hoje habita todo o planeta. Já a "à toa" é fonte de
discussão entre paleontólogos, pois há indícios de nunca ter existido. É enorme
a incredulidade no meio científico de que possa ter passado pela Terra, algum
dia, uma mulher inútil. Ainda que a espécie, na era das "mulherzinhas",
não trabalhasse fora das cavernas, é sabido que a maioria delas tornou-se mãe -
o que fulmina por completo a ideia de uma classe "à toa". Mesmo as
que não exerceram a maternidade, dedicaram suas vidas a cozinhar, costurar,
podar o jardim, cuidar de outras crianças, lecionar, medicar feridos,
aconselhar atormentados, comandar orações e gerenciar a rotina doméstica.
Pesquisas apontam que o termo "à toa" possa ter sido derivado de um
preconceito ancestral em relação à sexualidade das "mulherzinhas" e
se mantido até os dias atuais na tentativa de oprimir os "mulherões",
já que, em algumas mentes arcaicas, ainda causa espanto o fato de as
mulheres terem o direito de fazer o que bem entendem com o próprio corpo.

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